segunda-feira, 10 de maio de 2021

NA CASA DE CIMA



Dakini, (pseudónimo de Dolores Marques), na sua inspiração poética, sempre fiel ao seu lugar de nascimento.
Mais Serra do Montemuro, mais Terra, mais Pessoas, mais vincado o Feminino Montemurano....
"A minha aldeia é Moção, mas vejo todas elas com os mesmos olhos"




 

Corpos



comunicando
seremos todos um 
na emancipação 
do tempo
no emaranhado
dos dias
na invisibilidade
das noites
na inconstante 
previsão do momento
em que um corpo
se levanta
mas há uma calamidade
no mundo
esvaindo-se
na passagem
enquanto não cai
mal dos que se erguem
e não têm tempo
nem espaço
onde enterrar
os mortos
e
sacudir os vivos

(Dakini, pseudonimo)





 

domingo, 4 de outubro de 2020

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Poeta que atravessa o tempo


Falo-te de nós

Guardado na arca, um vestido com cheiro a mofo. Enxovalhado, amarrotado, rasgado. Esperar, era sempre um acto de coragem a enfrentar a porta fechada. Nem sempre as portas se abrem com ferrolhos tortos e fechaduras enferrujadas. 

Li num livro, que não devem as mulheres, sair à rua sem um vestido novo. Apesar dos adornos e das naftalinas, emancipado. Apesar dos jogos de sedução, e dos deveres, um bom livro. Porque nem tudo o que se lê é o que se vê. Nem o que se escreve é fruto de um testemunho válido por cima dos ombros. Os olhos que baixam ao nível das mãos, não sabem ao certo o que dizer. O tempo tem dias incertos, para quem não vê, que as dores de um parto são explosões de luz e cor, pelo corpo abaixo.

Digo-te de um tempo, não de mim. Eu, só procuro o que não encontro nas palavras ditas. Por isso, a olho nu, escrevo. Inspiram-me as estações. 

Falo-te de nós, de quem havia de ser. Deus?

Deus talvez nos siga e nos diga D'Ele, naturalmente, como o são os lugares que Ele sabe que nos fazem felizes para sempre. Embora se saiba que "sempre".... não é um único caminho pela serra. tão-pouco o rio Paiva se entrega a esse castigo, sem cumprir a promessa de se entregar à foz.  


Ao que parece, Deus não tem voz.

E tu, porque me soas baixinho, como se eu fosse um altifalante? Às minhas mãos, chegou, íntimo, alguém que me fez sorrir. Digo com alguma certeza, que não abona a seu favor, a roupa azul-turquesa, fora de moda. Por isso, tudo o que vês do lado de fora da porta, em nada se compara ao que se passa dentro da minha intimidade.

Quando os poemas são sóbrios, a inspiração é um misto de sentimentos, onde se pode beber, até que, embriagados, os dedos caiam sobre as teclas. Depois, é tempo de lembrar todos os momentos felizes, e voltar a eles de cara lavada. 

A felicidade é uma porta sempre aberta, um caminho sempre novo....

Deixemos então, o tempo calar o tempo da malvadez encurralada nos olhos, que é tempo de abraçar os corpos mutilados, é tempo de semear e colher novos tempos.

Dolores Marques, Onix