quinta-feira, 11 de junho de 2015

"O Que é Nacional é Bom"




Eram tempos de muita luta! Tempos que somando outros é costume deixarem marcas no corpo, e às vezes, dizem que também na alma. Apesar disso, gozavam de boa saúde com braços fortes e pernas ágeis. Subiam e desciam por caminhos e trilhos no meio dos montes como se fosse sempre a primeira vez. No seu devido tempo viravam as águas. Enquanto isso, surgia-lhes um sentimento de liberdade que eles viam a correr pelos campos, tal o desejo a crescer-lhes nos olhos e a distancia a minimizar-se nas pernas. Ágeis quando esgadanhavam o feno com a gadanha, tal como se agiliza um pensamento no abstratismo de um silêncio contido no âmago das horas que se resguardavam para orarem em coro: os homens, as mulheres e as crianças e os velhos. 

 Com a mesma facilidade com que malhavam com o mangual o centeio na eira, gozavam de uma perspetiva angelical quando o dourado resplandecia do cereal agora liberto nas mãos das  mulheres que o limpavam e o juntavam na eira. Detentores de uma força doada pela serra, ou sabe-se lá de onde, ou de que Força Maior lhes chegava a sua força, assim como não se sabe o porquê de toda esta bravura a saltar-lhes das mãos, quando treinavam e levavam os bois para as lutas na feira do fojo. O que mais se aproximasse do que eles delegavam como sendo um possível vencedor, assim o seria. 
Assim eram também os desígnios de uma terra infértil mas fecunda nos momentos fulcrais de uma semente lançada à terra. Do mesmo modo, assim eram por norma as formas construídas a pulso pelas suas próprias mãos, tal como os desígnios da fé. Assim se ajoelhavam com as mãos no peito, o lugar onde o coração se assume o ponto central de todas as vontades dos homens de boa-fé.
Igualmente se diluíam os tempos, apesar dos da guerra já passados e ultrapassados no além-mar, o Ultramar desconhecido e foragido no mato fechado. Ali foram obrigados a criar defesas, impedindo-os de caírem por terra, pelo fato por não saberem nem conhecerem a dura realidade que os levara ali. Que País o seu, onde nasceram, se criaram e se fizeram à força bruta da montanha que os não ensinou a conhecer outras lutas que acontecem no pensamento, o lugar onde se criam ideias, e objetivos e até se materializam os sonhos.  O lugar onde nascem os ideais, e por sua vez as ideologias políticas, as sociais, e até as religiosas. Que país foi este que não lhes legou, senão as mesmas escolhas que se baseavam, única e simplesmente na terra, porque só da terra lhes vinha o sustento. Esta a sua Pátria que não lhes forneceu o conhecimento necessário de modo a possuírem a mesma agilidade no pensamento, como a que tinham nas pernas, nos braços e nas mãos, por forma a entenderem antes de mais, o que os levara ali tão longe da família e da terra. Da sua tão amada terra. 
Mas depois,  regressados do mato, o mato onde se fizeram mais homens, enquanto que nas suas terras, nas aldeias da sua Serra do Montemuro, as suas mães, irmãs, esposas, se fizeram também mais mulheres. Todos juntos, eram mais conscientes de outros mundos, de novos sonhos a nascerem breves como o são os tesouros ainda escondidos nos seus próprios corpos.

Sofreram na pele também as consequências de uma guerra Mundial, e as dificuldades porque todos passaram apesar de terem de seu, um pedaço de terra para cultivarem, foram muitas. A necessidade que a Europa tem em se reerguer faz desencadear uma série de movimentos migratórios, e a década de sessenta, é assim um marco para a vida dos portugueses, e do próprio país, que apesar de não ter participado activamente na grande guerra, sofreu também com esse flagelo. Deste modo, e perante os movimentos migratórios externos e internos, dá-se uma reviravolta em termos de mentalidade de um povo.  O surgimento da globalização, altera todo este panorama, sendo o sector primário o primeiro a sentir alterações significativas com a deslocação de pessoas. Muitos alcançaram fronteiras, porém a mais relevante foi a passagem para França, País que aceitou muitos portugueses das aldeias de Castro Daire e com eles a mão-de-obra necessária com maior incidência nos sectores secundário e terciário.
Em Lisboa, a industria era detentora de um poder crescente para o próprio País, que se prestava a um desenvolvimento económico sob um regime pouco versátil, pois se do Estado Novo se tratava, de um vigor novo se servia para dar o arranque a uma economia de mercado, deixando a economia de subsistência no sector que ele próprio incentivara a desenvolver, o sector primário, ao abandono. Estávamos então perante um desenvolvimento baseado mais no crescimento económico.

Internos os novos movimentos alternados com alguma agilidade mental, assim migram todas as vontades de se saberem donas de um corpo, mas também de um pensamento mais equilibrado e reestruturado já com a evolução dos tempos. As fábricas enchem-se de mão-de-obra chegada das terras altas, ali onde o vento sopra e não arreda pé de um objetivo vivo, como vivos são todos os pensamentos agora mais edificados em algo maior e mais cuidado. Apesar da pouca instrução, dado que muitos saiam das suas aldeias apenas com a terceira classe, estas pessoas integram-se com grande facilidade como operários, pois a força de que são detentores não é de todo ultrajada, por quanto possuírem alguma consciência a assumir-se entretanto, dona e senhora e a ocupar o seu lugar num período de ascensão aos desejos de liberdade. Este período luminoso provém da força que lhes foi dada, por quanto  subirem ao alto da serra do Montemuro, e desta forma serem conhecedores das formas da contagem certa do tempo para virarem as águas, assim como este se apresentaria no dia seguinte; se iria chover, ou se faria sol, se o vento iria uivar na noite, ou se somente, um dia para a oração. 

A Zona Oriental da Cidade de Lisboa vê-se assim a braços com a decadência do seu fulgor aristocrático perante as invasões de uma industrialização calorosa, com gente vinda de vários pontos do País. Desta forma, Olivais, Poço do Bispo, Marvila, Beato, Xabregas,  Madre Deus e outras áreas limítrofes, sofrem as mais variadas alterações, quer a nível demográfico,  geográfico, e social, que novos  ventos do Norte, com maior incidência nas pessoas que vieram das aldeias da  Serra do Montemuro em Castro Daire, provocaram.  Temos como exemplo a Quinta dos Alfinetes que pertencia ao Duque de Lafões, a Quinta da Salgada, situada na Azinhaga da Salgada, onde se podia admirar um palácio e uma ermida e que agora se limitam a ser mais um conjunto de ruínas.
Com todas as implicações que este movimento migratório possa ter criado na cidade, o certo é que foi ele o motor para que Indústria fosse detentora de um poder laboral que manteve a sua pujança durante décadas. Porém, nem os empresários nem o próprio estado criaram condições de vida com alguma dignidade, para quem vinha de braços abertos, abraçar a cidade, tal como abraçavam a serra, o rio, as suas gentes, os seus usos e costumes. 

Com objetivos definidos iniciaram uma nova vida. A cidade transformou-se num misto de contradições supostamente enquadradas na alienação ao património cultural edificado ainda nos palacetes que sobrevivem a esta invasão industrial com mão-de-obra vinda das montanhas. Trouxeram armas nunca antes pensadas para a realização do maior acontecimento que iria marcar para sempre as ruas, e ruelas, os becos e as quintas abandonadas e os quintais desesperançados. Trouxeram ventos admiráveis de contentamento para a remissão de todos os pecados que mendigavam pelos atalhos ainda frescos de uma cidade com o rio a seus pés. Trouxeram ainda conhecimentos de um tempo como se a esfera armilar nunca tivesse saído das suas mãos. 
Navegavam ora com contentores puxados pela força dos seus braços, ora com enxadas cavando quintais nas quintas entretanto abandonadas, ou adquiridas pela autarquia e deixadas à sorte de quem quisesse desbravar o mato e as silvas deixados ao acaso. Ainda hoje quem quiser aventurar-se por certos caminhos com casas em ruínas, onde também se vêem montes de pedras mal arrumadas, podem constatar-se todas estas verdades de um povo que não se ajoelhou perante as dificuldades de uma vida, numa cultura de subsistência nas suas aldeias, assim como o não fez, diante de uma cultura onde a economia servia uma sociedade capitalista permitindo que vivessem em condições miseráveis pouco dignas de quem tanto semeou e trabalhou a terra num minifúndio recôndito por entre serranias.

O que se ganhava era muito pouco, assim como escassos os recursos para fazerem face à vida na grande cidade, limitaram-se inicialmente ao espaço que consistia num aglomerado barracas num terreno que pertencia à Quinta Marquês de Abrantes, mesmo ali junto à passagem de nível que separava este do alto de Marvila. Este Palacete setecentista dos Marqueses de Abrantes fora transformado na primeira Escola Normal Portuguesa, o conhecido Pátio Colégio, e hoje conhecido pela Sociedade Musical 3 de Agosto, onde as marchas de Marvila ensaiam para o desfile dos Santos Populares. 
(O ruído que os comboios faziam sempre que aqueles portões enormes de ferro se fechavam era uma afronta aos meus sentidos todos, já para não falar do cheiro nauseabundo dos esgotos a céu aberto que escorriam por aquele chão de terra deixando tudo alagado e enlameado.) 
O autocarro nº 39 da Carris, em Lisboa era um encontro de todas as correntes migratórias, mas agora com os sapatos enlameados, por não se encontrarem com outras correntes duradoiras e límpidas como as do Rio Paiva e as das águas que desciam das levadas na serra. Da Praça Leandro da Silva no Poço do Bispo, o eléctrico nº 27 que se dirigia a Campolide, passando pelo Alto de São João, era também o princípio dos nossos passos, para darmos voltas à cidade. Com ou sem lama nos pés lá íamos a seguir o nosso destino ou a forçar destinos e encontros com que se prestassem a ser mais um fado cantado lá para os lados de Alfama, do Bairro Alto ou da Madragoa.
A Freguesia de Marvila, uma das maiores freguesias da cidade Lisboa, a que sustentou a entrada de grande parte das gentes das Terras Altas, seguindo-se-lhe a Freguesia do Beato, ali junto ao rio Tejo, onde ainda se ouvem as máquinas, e se vêem os braços de alguns meu conterrâneos. Muitos vieram trabalhar na Fábrica Nacional de Sabões, na Fábrica da Borracha, na Fábrica dos Fósforos, nos armazéns de vinho, Abel Pereira da Fonseca, assim como na Nacional, hoje “Cerealis”, a que mais gente empregou vinda das aldeias de Castro Daire. 
Quem não se lembra do célebre slogan lançado pela então Direção de Marketing, desta empresa, “O que é Nacional é Bom”? De facto, este spot publicitário, foi e ainda é imagem de marca de um produto mas hoje utilizado para tantos outros fins. Quase se poderia dizer que ficará para a história desta empresa na mesma proporção, que Fernando Pessoa está para a poesia, independentemente dos poemas que possa até ter criado, enquanto ali escriturário. 
Este slogan tão conhecido ainda nos dias de hoje, parece-me um hino à Nacionalidade, que se pode caracterizar de uma forma vincada, na origem de um povo que nasceu e viveu para a terra e dela se afastou para criar vida em outros locais. Ainda me lembro do dia em que foi lançado a par de um produto enquanto também eu operária nesta fábrica. Mais tarde a trabalhar também diretamente na área do secretariado no departamento de Marketing, antes da sua reestruturação na década de noventa, tive contacto com as pessoas que o idealizaram. Director de Marketing e Gestores de Produto. As farinhas da Nacional, as massas, as bolachas, todos estes produtos tiveram direito a este spot publicitário e foram até protagonistas nos grandes hipermercados a par com o Homem Estátua, que muitas vezes encontrávamos nas ruas da baixa lisboeta, quedo, calado, inerte, desfigurado. (Uma forma de ganhar a vida na cidade)
 O Homem Estátua foi também um dos recursos de mão-de-obra publicitária paga pela Nacional, porque o que é Nacional é mesmo bom. Ficava ali horas a fio, sem mover um músculo nem pestanejar um olho. Era o seu a seu dono, ou o dono no seu trono, porque outros ares e outros tronos nos chegavam por dentro das paredes das instalações da fábrica quando finalmente decidiram mostrar os vestígios de um convento, “O Convento do Beato”, nas suas instalações ainda então a laborar. Faziam-se marcações para visitar o local, que segundo nós seria impensável, a existência de tal contradição ante operários e máquinas como o principal, motor ali a funcionar, e não outro ligado a Deus e aos Santos, que eles tinham como mentores de uma ordem vigente ainda a fazer furor em seus corpos, que outras águas bentas benzeram e até receberam.  
Tratava-se do Antigo Convento do Beato António ou Convento de São Bento de Xabregas, que teve início no século XV, mandado construir pelo rei D. Afonso V. Foi o que menos sofreu com o terramoto de 1755, o que o levou a acolher os religiosos do  Convento dos Lóios e passou também a ser sede da paróquia de São Bartolomeu do Castelo. Um incêndio em 1840 destruiu parte da igreja e do convento, e tal como outros edifícios de índole religiosa ou não,  a indústria tomou posse. 
A então “Nacional, Companhia Industrial de Transformação de Cereais”, utilizou aquela parte do edifício, transformando-a numa das instalações da sua fábrica, e que só muitos anos mais tarde devolveu o convento à sua condição. A Nacional adquirida pelo grupo “Amorim Lage”, detentor da marca “Milaneza” contribuiu para o crescimento do maior grupo de transformação de cereais em Portugal, conhecido como “Cerealis”.
Grande parte das indústrias de então, já não se encontram em funcionamento, mas, a Nacional, apesar de laborar em menor escala, conta ainda com muitos operários nascidos nas aldeias do Montemuro, e que fazem furor nos corredores onde as máquinas esbracejam contra outras forças que estarão para chegar, quando manifestadas por novas forças tecnológicos a arrancarem vontades e sentimentos vivos, para coabitarem com sons metálicos da máquina que se prontifica para dominar a mente humana e se apoderar do mundo. A nova era robotizada no espaço, que, garantidamente foi chão de terra, e rios de lágrimas correntes onde os corpos coabitaram e prepararam a viagem até ao sonho. O homem, prestes a ser colocado num novo espaço bélico, se a ele se sujeitar como escravo dos tempos modernos, anda agora perdido num lugar-comum, convertido em masmorras sinuosas e desabitadas.
Enquanto a máquina do tempo se prontifica para ajustar o homem ao seu meio ambiente futurista, a humanidade refugia-se em outros movimentos que os levem a conhecer uma nova ordem garantidamente assumida como a verdade que se precisa conhecer num espaço cuidado para receber as novas formas de pensar.

Por isso, apesar das grandes transformações, as quais têm como pano de fundo o elemento humano agora mais desenraizado do próprio espaço que ajudou a criar, também defraudado aos níveis, social, demográfico e geográfico, pode verificar-se a predominância de valores assentes nos usos e costumes de um povo, que teve como ponto de partida a migração na década de sessenta. Foram estes valores que fizeram prevalecer até aos nossos dias, uma série de conceitos que determinaram a forma de vida de uma das zonas mais emblemáticas da cidade de Lisboa – A Zona Oriental.

Na Zona de intervenção da Expo98, agora o Parque das Nações e que eu costumo apelidar de “Uma cidade dentro de outra cidade” deu seguimento a este conjunto de variações, com fundamentos criados para o desenvolvimento económico a par de um crescimento económico. Mas, como diz o ditado, “quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro”, por isso vejo um muro a criar a divisória entre o “bem” e o “mal”, sendo que o mal parece existir na vontade que os conventos e os palacetes abandonados outrora utilizados pela indústria, têm de se manter. Uma sequência de contradições onde o ser humano parece cair na sua própria engrenagem, quando tenta abstrair-se dos espaços fechados e se divide entre doutrinas contraditórias, também em ruínas.
Ainda hoje se pode observar em grande parte das suas ruínas, o esforço e a vontade de um povo em tentar firmar-se, tal como se firmaram as leis do Estado Novo, e até as leis da própria Igreja, onde todos os batismos se deram e se receberam nas Terras Altas do Montemuro.

Por outro lado, o bem parece estar sempre ao lado do belo e do resplandecente, que é quando se passeia perto do rio e se admiram os grandes edifícios, os terceiros maiores arranha-céus, tanto lisboetas como portugueses, aquelas duas torres gémeas junto ao  Centro Comercial Vasco da Gama, as torres de São Rafael e São Gabriel imponentes como dois grandes barcos junto ao Tejo.
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Ao fim de tantos anos numa cidade em franco desenvolvimento e crescimento, estão agora em frente ao maior evento da cidade, ali mesmo tão perto do sítio onde de sapatos enlameados navegavam por outros mares, como se a Esfera Armilar se demorasse nas suas mãos, enquanto outros projetos humanos estariam para chegar. Ali se lançam em olhares de admiração, enquanto sossegam o corpo olhando para o céu, à espera de novos ventos de esperança, quando a gigante Esfera Armilar se afirma no centro convexo de um olhar para o futuro. Ali está ela no Parque das Nações,  no Edifício Ecran, o maior da Península Ibérica, em construção contínua. Tem a dimensão do maior navio cruzeiro do mundo, num Projeto do Arquiteto Trofa Leal. Uma das suas evidências é a Esfera Armilar. O Painel de Azulejos colocados na parte frontal é da responsabilidade de Jorge Martins. Os azulejos: Raton de Viúva Lamego.

Nas ruas, um cheiro a novo, um modo de vida que se vê afluir no tratamento diário que dão aos jardins. Bem cuidados os espaços verdes, mas descuidados os olhares para o chão onde a água escorre por um sistema de rega automático, renegando a enxada e os movimentos dos braços que não se colocam de feição em direção à terra. Aqui onde só o poder económico designado por crescimento económico tem lugar, mas isento do tal desenvolvimento que todos precisamos,  para fazer desta cidade e do povo que nela habita um lugar onde os muros não existam. Aqui, poderiam sair das ruas os mendigos, e abrigarem-se entre as paredes das fábricas que ainda resistem mesmo que em ruínas. Paredes negras, grafitadas, esquartejadas pela máquina do tempo, que irão por certo dar lugar a um empreendimento num condomínio fechado, com piscina e jardins onde o mesmo sistema de rega fará furor por entre arbustos e relvados verdejantes. Nada como o que viram e aprenderam quando levavam as águas a saltitar pelos caminhos de xisto.

Apesar do denominado movimento migratório da década de sessenta ter sido um sucesso, no que concerne à melhoria das condições de vida de muitos, estamos perante um retrocesso provocado por uma crise sem limites,  forçados a aumentar as estatísticas do número dos  desempregados, e prestes a regressar antes do tempo previsto às nossas origens. Enquanto isso, os nossos descendentes irão provocar mudanças em outros países de uma Europa desajustada, e também ela desenraizada do mundo. Inicia-se assim mais um ciclo de vida que tem como consequência o abandono pelos jovens do seu País de origem, contribuindo para uma alteração aos níveis demográfico e social nunca antes vista. Os movimentos migratórios criam novas mudanças que operam agora em maior escala a nível mundial.

Portugal, simplesmente um país sem fronteiras, uma pátria sem limites, que cria distâncias entre os seus, sem sequer conseguir fazer frente aos interesses de uma ordem vigente instalada e não reclamada por quem de direito, perante a qual se subjuga a um poder descomunal, não se define para o bem de todos.

Eu Sou Dolores Marques, Coração da Terra
Fotos de minha autoria

terça-feira, 9 de junho de 2015

Cantora da Beira Paiva - Aurora Simões de Matos

A força que recebeu de um Deus tão seu sente-se em cada sopro de um vento que passa breve. Dádiva, Dom ou simplesmente a voz com que canta ainda hoje a sua terra, um marco que a firmará pelo que representa a sua fé Nele. Enquanto Mulher doou-se à vida e fê-la germinar no seu ventre, florida tal como se abriam em flores, as urzes no Montemuro. Serra mãe de tantas aldeias que ali pariam os seus filhos. Terra origem ou um fundo de vida que nunca olvidava as sementes mais transcendentes.

Ouviam-se sons dispersos, reafirmados na teimosia dos ventos. Estes, embalavam as noites, cujas vestes brancas desciam a céu aberto. Ouvia-se com tal nitidez o caminhar das águas pelos caminhos. Sumiam-se em ocultos movimentos, outros haveres de gente dura de braços e branda nos gestos. 

Simplicidade carimbada por inúmeros silêncios, ecos escusos em diversas sombras desenhadas nas paredes de xisto.

A vida que a abraçou, acolheu-a no tempo devido. Sentada numa das varandas da sua casa fazia acontecer o milagre das águas. Passavam elas logo ali em baixo. Ouviam-se à Beira-Paiva, e ela, menina alegre, doce e franzina, olhos negros e os longos cabelos pela cintura fina, desbravava cerros de terra seca com a verdade dos seus olhos. Aconchegava o tempo nos seus braços e com seus passos leves, caminhava sobre um tempo que se previa luminoso.
Ouvia-se entre bolhas e bolhinhas provocadas pelas correntes que se escapuliam entre as rochas. Mirava-se num leito agora morno de águas paradas. Era assim o seu reflexo a aproximar um tempo futuro de sublimação. Um devir que perto, muito perto haveria de se cumprir, embora lento, embora frágil tal as névoas casadoiras com um céu maior a descair sobre o monte.

Fala-me coisas, muitas em frases descontinuadas no tempo. Faz retrocessos, avança como se o mesmo já não fosse nada além de um tempo agora acomodado na sua voz. Às vezes trémula, outras, segura de si, como o são os movimentos que dá na grande roda que a vida ainda é.

- Eu era menina, na idade em que a vida não estorva. Não me lembrava do tempo para trás...e o tempo para a frente tinha sempre o mesmo nome. E nele pouco mais contava que o sol de perfumes sem espaço...a inundar de cores o meu quintal, onde sorriam sabores.

Poetisa que vem de longe com sons e luzes e cores. De um lugar onde só os poetas ouvem os gritos agudos de Deus. Mulher grande da minha terra; que debruçada sobre rio cujo leito se conjuga entre as várias correntes do verbo amar; que da serra se alimenta para que a ouçam cantar e a saibam para sempre o Verso num colo de Mulher(...)

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sementes de Deus

Estava ali 
como quem
não quer nada
mas sentada 
na pedra
da eira
a mesma
onde crivara
o milho
depois dos feijões
e soprara os grãos
em direcção ao céu

Estava ali
a seguir
às leiras cavadas
a torcer a roupa
depois dos esfregões
no tanque
aos lençóis
a beber da fonte
que brota ainda
água fresca
no Verão

O mesmo Verão
em que ao serão
desprendia o carrapito
e soltava os cabelos
tão brancos
como a farinha
com que cozia o pão

E eu ali estava
agora deitada 
na mesma pedra 
da eira
e lembrava
o tempo...o tempo
da lareira acesa
quando as mãos dela
passavam rentes
à fogueira
e enchiam
panelas de ferro
com as gotas
de um suor frio
e o escorrer
de uma lágrima quente
enquanto o estrugido
saltava na sertã
para a ceia

E eu continuava ali
agora sentada
na mesma pedra
onde ela massou
o linho e o espadanou
com uma espadana
que guardo
sem nenhum rasgo
de pudor
ou rancor
pelas flores de linho
arrancadas à força
pelas minhas mãos
enquanto criança
quando brincava
com as ervas 
e com os molhos
atados pelas mãos dela

(Tão bela e tão certa
estava de me entregar
agora à solidão da eira
sem os pés no chão)

E lembro
e relembro
os olhos dela
cansados
e sujos de terra
as mãos…as mãos
calejadas da enxada
e a aliança... a aliança
a brilhar ainda 
na mão esquerda dela

E eu continuava ali
agora de pé
a olhar o céu
e a escrever nele
um poema
e também uma prosa
sentida por ela
e por todas as mulheres
da minha terra
que sem dono
nem trono
se deitaram na terra
e fizeram dela
o maior parto 
já visto do céu

E ela lia e relia
lá do alto
todas as letras sentidas
por ela e por todos
os que deixaram a terra
arada, regada e semeada
de todas as sementeiras
que Deus nos deu

DM

Silêncio das palavras

O meu modo de vida de agora, poderia afastar-me desta terra isolada e agreste, gente de cara suja pelo trabalho árduo a remexer a terra. Mas foi aqui que aprendi a ser como sou. Sinto-me parte dela, tal um fio de ligação à terra, ao rio, à montanha, ao céu que parece querer tocar-me as pontas dos dedos. Foi neste espaço que nasci e me criei com características tão diversas, tais como a dureza granítica das terras altas, a suavidade das flores silvestres, a serenidade das águas do rio, a tranquilidade de um silêncio nocturno e o céu coberto de estrelas que me transporta para os mais diversos lugares. 

No Montemuro, as formas assumem uma gigantesca transformação. Seremos capazes de conseguir, também nós, mostrar-nos sem ferir a mais pequena partícula de granito que nossos pés pisam? Os nossos passos seguem e as partículas de granito ficam para se juntarem a outras. Juntas, irão absorver e calar os ecos dos nossos passos, que muitas vezes deixam um rastro de indecência que amedrontam as encostas perfumadas de rosmaninhos. Ousam até desafiar os cumes da serra que o sol abraça. 
E os nossos braços serão assim tão fortes, que consintam num abraço tão forte como o de algumas formas arquitectadas pelo tempo?

Há formas que se constroem a partir da mais pequena partícula. Sentem que a cada nortada forte, lhe sucede também uma brisa suave, que transforma e suaviza o ventre materno, de forma a criar mais circunstâncias vitais renovadoras. Assim, ao pararmos para simplesmente observar, vemos as formas, consoante a nossa visão do mundo e das pessoas. 

Lamentavelmente, muitas formas ainda se encontram em estado de gestação, pelo que, não as consigo ver crescer, transformarem-se em criações mais adequadas ao meio. Por isso, parti o meio pela metade, e no centro, encontrei  a outra metade. Talvez assim me junte a ela e me refaça no meio das gigantescas formas orgásticas de vida na vida, organicamente instituída. 

Acredito no ser humano. Curvo-me perante a sua grandeza, aquela que me faz ser num mundo fantástico das ideias, mas recuso-me a seguir conceitos, regras criadas para satisfação de interesses, onde só o absurdo corre por entre portas e janelas.

Da minha nova janela vivo por momentos aquela satisfação de ter uma janela aberta para o mundo. O rio ao fundo e alguns barcos que passam. As palmeiras que se abeiram nos telhados antigos, entregam-se num abraço às paredes toscas dos palacetes que sobrevivem esquecidos no tempo. O céu aproxima o brilho das estrelas, idênticas às que me punha a contar na minha aldeia. 

Fazia-o sobre a varanda antiga de ferro com recortes circulares voltados para as serranias. Olhares, num único olhar para o céu a perder de vista, faz-me pensar como agrupar as palavras que falam de sentimentos. Elaborar talvez um puzzle como tanto gosto. Brincar com as estrelas. Acolhê-las nos meus seios e transformá-las em botões de rosa circundando um espaço vazio, onde me deito e encosto ao silêncio das palavras.

DM in "Coração da Coração"



Histórias de um rio

Isolados, no meio da serra trabalham a terra, e com ela remedeiam a vida que lhes é cruel e  pouco lhes dá. Não fosse pela forte ligação à natureza, poderia dizer-se serem escravos de si mesmos numa terra árida e agreste, a terra da má sorte. Porém, a mesma natureza oferece-lhes alguns raios de sol e uma fresta de luz que vem do céu nítido e brilhante, tal como alguma liberdade de pensamento.

De passagem por Ester e como sempre um olhar sobre o Rio. A ponte ostenta a cada ano que passa as suas ruínas, as quais lhe conferem um dos ex-líbris do Concelho, pela imagem que se confere num dos mais belos postais turísticos. O rio corre silencioso ao fundo por entre os pinheiros e os amieiros. Sente-se o seu pulsar sereno avivando os montes que lhe concedem um estado ainda virgem.
Encontram-se, tal como aqui, muitos outros vestígios da passagem dos Romanos. Podem ver-se nas pontes que ainda sobrevivem, como é o caso da ponte Pedrinha à entrada da vila. Em Grijó, a ponte de Cabaços, dá mostras, de que a arte moderna já por ali passou através da construção da nova ponte. A outra encontra-se ainda a querer sobressair no tempo que lhe deu vida.
Miro-a a cada ano que passa tentando contar as pedras que mergulharam nas águas deste rio. Se o vento soprasse de mansinho, a água correria no sentido oposto e até os peixes deslizariam pelas fragas soltas cobertas de um musgo acastanhado. Mas não! Não se sente nem um aroma de brisa e o vento do norte vem quase sempre neste mês de Agosto. É à noite que ele se sente com maior intensidade. Ouço-o sempre antes de dormir, quando se adentra pelos terrenos arrasando as culturas. O eco ruidoso que deixa à sua passagem, é revelador da sua força, sentida bem firme nas terras altas do Montemuro.



Decidi ouvir as correntes que quase sempre são rápidas no seu trajeto até à ponte. A água deste lado tinha a calmaria de um manto de ervas de linho, o contraste perfeito com os ramos dos amieiros e as carumas lânguidas dos pinheiros que sobrevoam as correntes. Observo as margens do poço fundo e as bogas que se apossaram das correntes paradas, olham-me de soslaio sem saberem se hão-de ir, ou se preferem ficar. Os peixes que por aqui abundam têm quase todos a mesma cor. Coloco um pé na água para lhe sentir a frescura e abafar este calor que se sente sempre em Agosto, e é vê-los a deslizar uns para um lado, outros para o outro, escondendo-se por detrás das rochas.

Após crescer ao sabor do vento, a erva é sempre um pasmo para os olhos e ócio para o corpo, um convite ao descanso, quando o sol está prestes a passar a linha que separa serras, monte e vales. O céu a querer atingir a cor índigo, mas não sem antes deixar um sombreado nas águas que mais parecem luas gigantes a boiar no meio do oceano.

Irrompem pelo meu silêncio vozes soltas que vão chegando. Crianças com frenesis nos pés enquanto os pais em êxtase perante a paisagem que se lhes oferece terna e aconchegante. Procuram todos um lugar certo mas sempre a tagarelar. Elas, as mães despem as crianças, colocam-lhes no corpo proteção solar, boias para as que não sabem nadar. Observo a água cada vez mais apetecível. Lá, onde o sol não chega, à fundura das águas, a cor assume-se mais escura, como se a corrente fosse a dor de um dia acorrentado. Falta-lhe o brilho das pequenas partículas de areia que eu pegava sempre quando em criança vinha aqui nadar.

 A linha estava bem traçada e não avançávamos mais do que três ou quatro metros desde o início da margem. Faltava-me a segurança de hoje para simplesmente entrar na água e afundar-me nela, inspirar, expirar, e deixar-me ir até me cansar.

Nisto ouço alguém chamar por mim. Encontro um amigo de infância. Falámos durante algum tempo. Lembrámos outros que também se foram tal como nós para a cidade. Falámos das brincadeiras, dos jogos, dos concursos que inventávamos ali mesmo naquele local. Pergunto-lhe:
- Lembras-te das nossas loucuras, das nossas brincadeiras de crianças, quando nos aventurávamos a saltar do topo daquele pinheiro. Bem… agora está mais alto, mas mesmo assim, para crianças da nossa idade, na época era um gigante não achas?

Ele ria e dizia em tom baixo, como se temesse que alguém ouvisse.
- E se soubesses o medo que eu tinha de fazer aquilo. Só o fazia porque o teu irmão e os outros se lançavam dali sem medo. Não podia dar parte de fraco, mas o meu coração batia tão forte. Vê só as rochas enormes bem perto de onde mergulhávamos.

- Sim tens razão Mário. Eu não saltava. Nunca consegui. O que mais me agradava era aquele jogo em que mergulhávamos para ver quem conseguia aguentar mais tempo debaixo de água. Esse sim eu gostava. Mas sabes? Eu sempre ouvia a minha avó, a minha mãe e a minha tia dizerem que as crianças trazem sempre por perto o seu anjo da guarda. Lembras-te de quando nos lembrámos de explorar casas velhas a cair de podres? Isso era perigoso. Entrávamos por lá adentro e atravessávamos as traves a desfazerem-se e já sem soalho à volta. Eu numa dessas brincadeiras caí. Lembro-me ainda agora do meu vestido branco se transformar num balão, tipo para-quedas. Fui até lá abaixo sempre a planar. Não me vais dizer que foi o meu vestido que me ajudou? Estava lá ele de certeza!

Nisto, ouvia-se uma voz de mulher que ecoava por entre o pinheiral. Era sua esposa, avisando-o do adiantado da hora. Despedimo-nos. Ainda fiquei a vê-lo entrar na água e deslizar rápida e suavemente até atingir a margem do outro lado, mais perto do sítio onde quase sempre largamos as viaturas. Sorri, lembrando que também ele aprendeu tal como eu a nadar ali em criança. Estávamos os dois no nosso espaço.
Terra rude mas ao mesmo tempo aconchegante, como uma mãe está sempre para abraçar um filho ausente. Terra sem idade, agreste, selvagem mas plena e sem vertigens nos olhos.


Entrei na água e ali fiquei, ora nadando, ora boiando na corrente calma e serena, enquanto dirigia o olhar para o céu. Ali, é um sono aberto para o infinito de cor azul.
Passado algum tempo decido voltar. Fez-se tarde! Noto-o pela posição do sol já perto de passar o alto do monte. Volto a mergulhar e ao alcançar a margem vejo um homem de estatura tão pequena, que mais me parecia uma criança, a dirigir-se na minha direção. Olho à minha volta e reparo que todos se tinham ido embora. Era quase hora de jantar. O homem olhava-me como se me conhecesse, mas era-me totalmente desconhecido.
Quando já próximos, perguntou-me se tinha visto algum rapaz que ali tivesse chegado de bicicleta, que procurava os seus familiares. Eu observava-o, enquanto me vestia mas com um nervoso miudinho a embrutecer-me os olhos, pela mudança do e no tempo com um início de conversa a entrar pelo lusco-fusco adentro.
Ele esqueceu a família que procurava, assim como eu, os meus pais que deviam estar também à minha espera. Já falávamos de muitas coisas: de Fé, de Deus, de Anjos, de pessoas, do amor, de alegrias, de tristezas, de épocas vividas e por viver. Falávamos do rio e das suas correntes e da terra, sim do cheiro da terra.
Falámos de tantas coisas em tão pouco tempo, que nem sei o tempo que ali ficámos no mesmo lugar onde eu tinha deixado a roupa, e ele se quedara quando do nosso encontro. Eu com os pés dentro da água não sentia as pedras debaixo dos meus pés. Ele continuava ali em cima do monte de terra onde as ervas crescerem mais do que o normal, no meio dos juncos.
 Enquanto conversávamos, ia reparando nos traços que da sua fisionomia. Era um ser minúsculo, diferente das pessoas que até ali a vida me permitira conhecer, à exceção de um ou outro anão.
Tinha um corpo muito magro, aí com um metro de altura, orelhas grandes, esguias e bicudas no topo, boca grande para a estatura. Os olhos, ora verdes, ora cinza, ora azuis, ora castanhos, mas quase sempre se apresentavam entre variantes coloridas indefinidas.


Quando lhe sugeri que fossemos, que estava a ficar tarde, indicou-me a casa lá no meio do monte e que eu estive quase para conhecer de perto. Contou-me as histórias das famílias que a habitaram, dizendo-me que morava mesmo do lado esquerdo dela, mas que por via do crescimento dos pinheiros era impossível ver-se dali.  Pensei para mim, que ele não deveria estar bem de saúde, pois nunca naquele sítio, eu tinha visto uma casa.
Observo-o com mais cuidado, e penso que para ser um habitante daquele lugar havia uma falha que consistia na ausência do sotaque tão característico e que me causou alguns dissabores quando a  viver para Lisboa.
Estranhamente, encontro-me entre pensamentos indecifráveis, como se aquilo não fizesse parte de uma realidade mas de um conto qualquer onde a ficção existe para dar vida própria aos personagens de uma pequena história ou estórias mirabolescas de um rio. Deduzo que talvez fosse ali só para falar comigo.
Mas, a ser assim, talvez tivesse para mim, alguma uma mensagem importante. O meu pensamento é interrompido pela voz de minha mãe, que envolvida com a corrente do rio passava silenciosa. Abro os olhos e pergunto-lhe: - Onde está ele? O meu Anjo?
Responde-me sorrindo, depois de ter olhado para um e outro lado: - Adormeceste e sonhaste com anjos. Tu e as tuas crenças levar-te-ão longe. É preciso não perder a fé.

Seguimos em silêncio, até que às portas da aldeia me lembrei de que tinha um livro novo para ler. Tinha-o recebido, não das mãos da autora, mas sim de quem me sugeriu escrever sobre esta figura carismática que viveu por terras de Castro Daire. Quando nas instalações da Câmara Municipal de Castro Daire, mo colocaram nas mãos e me perguntaram: - Conhece esta autora daqui do concelho? Este foi dos livros de editou. O livro tem como título: Imagens da Beira Paiva. Sentei-me a ler até chegada a hora do jantar.
Quando por via do esquecimento perante o folhear sôfrego das páginas do livro, não me lembrei mais da fome, até que ouço a minha mãe chamar-me. O jantar estava na mesa. Meu pai arranjou forma de se sentir útil, e faz questão de colocar a mesa, não esquecer o vinho que ele próprio faz, o pão fresco do dia. Sentámo-nos por fim, depois de arrumar Imagens da Beira Paiva de Aurora Simões de Matos, juntamente com outro livro sobre as Siglas do Convento da Ermida da autoria de Abílio Pereira de Carvalho, um historiador e pioneiro por trilhos da serra, dando voz aos ecos do convento da Ermida como se pode ler no estudo que efetuou e já em livro.

Não fosse esta lonjura imensa e este pedaço de terra íngreme e agreste a separar-nos, e poderia ter aqui dois aliados neste caminhar sobre as minhas memórias a sentir o pulsar do coração da terra que é de todos nós.


segunda-feira, 27 de abril de 2015

A Voz do Fogo

“Moção, Uma Aldeia Esquecida”, um blogue criado em 2008 não chegou do centro de um nada, um desses nadas que se transformam em esquecimento. 

Surgiu assim a meio de um pensamento focado num monte de pedras mal arrumadas no caminho. Surgiu também em caminhos, por onde só se passava quando alumiados por uma lanterna a petróleo, apesar da existência de luz eléctrica em quase toda a aldeia. Para acedermos a uma casa antiga no fundo do povo, era assim, de lanterna na mão, e, pé ante pé para não cairmos no dito cujo, monte de pedras mal arrumado no caminho. Disseram à minha avó, quando instalaram luz eléctrica na aldeia, (eu estava lá e ouvi), que só colocariam luz eléctrica junto às casas habitadas por gente. 

Pensei cá para os meus botões, que as outras, as que só os “fantasmas habitavam”, não precisariam de luz. Engano o meu. Era então uma criança, com a força dos elementos a crescer dentro de mim.

Continuando a dissertar sobre “Moção, Uma Aldeia Esquecida”, um pensar que surgiu também de um pensamento que se escorria juntamente com um correr de água por um tubo que vinha lá do cimo do monte. Pensava porque “diabo” as águas que pertencem a todos por partes, a par com as Luas, com as Estrelas e o Sete-Estrelo, e até com o Sol, deveriam agora vir canalizadas só por um único sentido.

Visto que não entendi na altura, e porque continuo presa a um fio de água que se remete a um passado não muito longínquo, continuo com a mesma convicção: “Moção é mesmo uma aldeia esquecida por todos. (Moção mas não só!) E quando digo todos são mesmo todos. Às vezes, dou comigo a pensar, e pergunto-me: - existirá ainda alguma consciência a brotar por entre nascentes que resistam nas levadas, e se por acaso pensam nos erros das gerações passadas, as que já lá estão, no vale onde os pecados serão benzidos por outros fios de água? Pensarão os que cá estão também nas gerações vindouras? 
Foco-me agora não só em Moção, mas em todos os lugares onde não se sabe que caminho dar às águas. 

Não será à conta do que pretendem levar à socapa, pela calada da noite, abrindo bueiros de poças e virando regos nas levadas, nem tão pouco da desgraça alheia quando por via da desgraça se condena à má sorte, os que tentam proteger os terrenos e as águas que lhes pertencem, NÃO! Não será por conta da soma de anos de sofrimento a que se sujeitam e/ou sujeitaram algumas forças no feminino com crianças de colo NÃO! Que seja à conta da verdade de se ser gente de verdade no meio da serra, e com ela elevarem-se nas alturas, onde moram já todas as verdades das marcas de águas que escorreram, e fizeram mossas nos caminhos.

Têm consciência de que as gerações do futuro, se tiverem que regressar aos lugares onde têm as suas origens, quando ali chegarem terão por certo uma guerra para travar entre trovões e trovoadas e que se denominará de “A Guerra das Águas”?

Lamenta-se o fogo e o que ele provoca nas paisagens rurais e seus limítrofes. Triste a paisagem com lamentos escondidos por entre as folhagens. Mas quem conhece a terra sabe que atrás dos tempos vêm tempos, com eles nascerão muito em breve novos arbustos e novas folhas cobrirão os montes. É só chegarem algumas chuvas e tudo voltará a nascer. Porém, quando o fogo alastra, traz com ele uma voz profunda do centro da terra e descobre verdades escondidas há muito tempo, por tempos já esquecidos. Destapa marcos que muitos não pensavam voltar a ver para assim transmitirem aos seus, o que é de seu. (Ficariam os terrenos para quem se lembrasse deles, mais tarde). Descobre minas de água em terrenos áridos onde se cortava o mato para os currais dos animais. Essas águas serviram os tempos áureos das terras às quais pertenciam as águas, quando com elas se regavam os milhos e os feijões e as videiras e as oliveiras. 

Eu estava lá, vi e ouvi o caminhar de algumas dessas águas!

Agora, e ao fim de muitos anos consegue ver-se o que outros aproveitaram para lembrar o que os donos por via da velhice, esquecidos, eram muitas vezes levados a acreditar serem águas passadas em terrenos já subjugados pelos matagais. Os outros, que a migração dali levou foram em busca de melhores condições de vida, e as águas direccionadas para outros locais, lá iam silenciosas por entre tubagens enterradas no meio dos montes.

O que o fogo nos traz gente da minha terra. O que o fogo deixa a descoberto minha gente. Canalizações de água que servem os propósitos dos habitantes da aldeia e que por sua vez, servem os propósitos de outras aldeias. Vão-se os antigos com seu saber, e agora já não se sabe a que terrenos pertencem as águas, porque o início da guerra das águas chegou silenciosa e já deixa marcas nos caminhos. As marcas de um saber, que, o que os donos esquecem, outros insistem em lembrar sem nenhuma ordem focada no pensamento. Afinal, a aldeia de Moção continua a ser lembrada pelas suas águas e pelo que deu a beber num passado muito próximo.

O que o fogo descobre gente da minha terra! O interesse das gentes, das gentes que querem tudo e depois deixam um nada para os seus descendentes. O fogo, um dos elementos a ter em conta neste cenário esplendoroso, tem muito ainda para contar às gerações vindouras. Por isso pensem no que querem deixar como legado aos Vossos descendentes: se uma terra próspera com água distribuída para todos de forma equitativa, ou se uma guerra sem precedentes aos que a vierem a pisar um dia a mesma terra pisada por Vós, isto se TERRA assim o desejar. É o que teremos por certo.
Tudo isto me deixa triste e sem forças para subir o monte numa próxima vez.

Dolores Marques

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Nos braços dos homens



Tinham todos um corpo inteiro
Que vinha lá do tempo sem tempo
Chegavam todos os braços dos homens
Resgatados do mundo sem fundo

Eram os velhos e os novos
Eram os homens 
E os braços dos homens
Eram as mulheres de barrigas cheias
Que pariam nos braços dos homens

Todos juntos eram todos
Menos os outros que ficaram
A braços com a terra arada
Sem rumo e sem mundo choraram

Chegavam todos de corpo inteiro
Eram os velhos  e os novos
E eram as crianças de colo
Ainda nos braços dos homens

Carregavam a dor de um parto
Que ficou à parte dos homens
Vinham todos de um degredo
Vinham as mulheres e os homens
Vinham os velhos e os novos
Vinham os fardos de palha
Que a foice ainda lembrava

As mulheres de barrigas cheias
Pariam nos braços dos homens
E as crianças que eram de colo 
Ainda de braços estendidos
Caiam dos braços dos homens
Caminhavam descalças nas ruas

Choravam todos juntos
Junto às mães que de barrigas vazias
Se jogavam nos braços do mundo

Era um mundo lá do fundo
Do tempo dos braços dos homens
Era um tempo de degredo
À conta do mesmo medo
Que caia nos braços dos homens

Dolores Marques