segunda-feira, 17 de abril de 2017

Caminhos das sombras

Há dias que mais parecem cruzes!
Confiam nos olhos de quem escreve um Poema sem as mãos.
Mas, se as mãos bloquearem os olhos, a cegueira será um poema interdito. Ou Não?
Não sei até que ponto, estará pronto o Poema, face ao degredo dos sentidos oculares.
Hoje, até a poesia grita por conta dos ermos nos olhos abertos.
E digo-vos muitas coisas nunca pensadas, enquanto trancados os olhos à verdade escrita pelo tremor das mãos.

E digo-vos dos espaços, onde se escrevia sobre um vendaval desencadeado nas sombras ocultas dos olhos.
Nem sempre os olhares desmaiam, ante o linho amarelecido na arca de madeira. Ali tudo é um sentido único, na flor ainda em aberto da planta regada e não chacinada por pontos em cruz.
Nem sempre os sentidos são reclamados pela luz a nascer no ventre da madrugada.

A luz nem sempre aceita quem abomina os passos incertos ainda a pisar a terra seca e árida, cuja sagração dos deuses que a consomem nem sempre é um facto consumado.
A terra onde o Poema se fez luz, à custa de muita revolta pelo bico férreo do arado.
A terra onde o Poema castigado, sempre foi humilhado pela luz consignada ao tempo das sombras.
A terra, cujo ventre é ainda a clara luz, onde nascerão novos frutos, para se saciarem fomes de uns certos movimentos, que nascem sem as sementes lançadas à terra.

Hoje tudo é em debandada, pelos caminhos de Deus.
A voz que gritará de um fundo de vida, para que se saiba onde escrever um poema de terra.
A voz que sucumbirá ante um alvoroço na noite provocado por um raio de luz crescente.
A voz de sempre, que fará surgir fios de águas nos caminhos, onde se dão partos de luz.

Mas, continuo com esta convicção redobrada sobre um passado de terra, cujos olhos desenterram, e o fazem seguir viagem pelos caminhos das sombras.
E continuo assim a escrever sobre esta maldita fome, onde até a poesia sofre por conta de algumas correntes castradoras, e não sofredoras, até à última contagem de uns versos soltos nos penedos.

Dakini Pseudónimo de Dolores Marques




terça-feira, 28 de março de 2017

Tempo dos aromas silvestres

Estes dias por aqui são quase uma passagem breve pelo tempo das amoras. Aqui nem sempre me é concedido esse toque agridoce na pele, e na boca. Por estas bandas,  os silvados são feitos de ervas secas, que resistem à força do cimento. Mas um elemento novo, a dar-lhes vida, num balançar leve na suavidade das papoilas. Costumo entrar pelas hortas, numa procura rasurada do tempo da loucura a correr por cima dos muros xistosos e a embrenhar-me no novo colorido das silvas. Aqui nem as águas têm a liberdade, que qualquer elemento assume, na sua forma original - ser água que corre por qualquer terra lavrada.

Salto as couves, e os feijões, e as batatas. Tenho não incomodar com as minhas pegadas, o seu crescimento, mas de que adianta sonhar alto, com terras firmes nos meus pés, se por aqui, se enterram numa mistura lustrosa de um piso arenoso e barrento. A verdade é somente este misto na labuta, ainda a crescer nas gentes, que operam milagres nas terras áridas, num agridoce barrento, mas ao mesmo tempo, suculento no seu saber cantar sobre a terra as melodias da serra.
  
Decido então caminhar pelos charcos da chuva que chega abafando este ruído intenso nas ruas da cidade. Percebo, porém, que nem ela tem a capacidade de me encharcar toda, como gosto.

Costumo pensar nos regos cheios de água, a atravessar as pedras das calçadas, e dos cheiros vários dos fenos e dos fetos verdes nos pinhais. Eu tinha a percepção da sua passagem através dos odores fortes a encher caminhos. 

Penso sempre naqueles caminhos como os meus caminhos, quando na verdade, eles existiam para a passagem das águas.
Lembro quando me debruçava, para nela me mirar toda até aos cabelos.  A minha intenção não era saber sobre o meu reflexo ali espelhado naquelas águas, porém, admirava as formas do seu dançar por entre os pequenos xistos. Depois também eu, distorcida na pequena corrente brincava com aquele vulto, largado por ali em leves oscilações.

Lembro-me também, das minhas mãos coladas uma na outra, quando tentavam conhecer a textura das resinas, a escorrer por cima das carumas. 
Quando os cucos cantavam lá no cimo dos pinheiros, os seus ecos saltitavam por cima das folhas secas, e tudo se presumia uma grande aventura no tumulto dos ventos ali plantados.

Aqui, pela cidade, os ventos também não são soltos como eu gosto. Despenteiam-me de forma atabalhoada. Fico sem graça, porque um vento quando é vento a sério, canta aos meus ouvidos. Um vento quando sabe que é mesmo vento levanta um remoinho, tal, no meu corpo, que até parece que levanto voo. E este, não canta. Este vento chora baixinho debaixo dos meus cabelos. Este género de vento não dança, rasteja por entre os muros erguidos em todas as direcções.

Estes tempos por aqui, sabes, são quase uma breve passagem pelo tempo de todos os aromas silvestres, com amoras na minha boca

ONIX/DM

sábado, 18 de março de 2017

Hoje trago-vos um sol de primaveras longínquas.

Hoje trago-vos um sol de primaveras longínquas.
Hoje ainda vou a tempo de nos voltar a lembrar do tempo dos olhos abertos à clara luz que enche os espaços fechados.
É sempre tempo do esplendor nos nossos corpos esfomeados.
Há também um tempo a nascer-nos em cada palavra ainda sufocada.
Não me queiram a nomear-nos obras incompletas, quando por morte de um só verso nos nossos pecados.
Ontem clamei pela poesia, e não pelos nomes daqueles que só se enxergam à luz de um nome - POETAS.
Quanto de poeta existe na poesia?
Quanto de poesia existe nos poetas?
Ontem arrefeci as mãos por não saber escrever-vos um poema.
Hoje lembrei dos nomes poéticos que havia esquecido, e por sorte chegaram-me no tempo dos equinócios, que estão para breve nos nossos olhos.
Hoje é um dia diferente, por termos nas mãos os traços ainda verdes das primaveras longínquas.
Hoje quero dizer-vos que deixei as palavras a nascer sobre os olhos todos que trazem as novas flores da primavera.
Acomodei-as ali, para que não sejam simplesmente um monte de letras a bailar nos corpos ainda deitados - Os seus sonhos não são ainda uma janela aberta, porque a noite trancou-lhes o portal do templo das primaveras.
Hoje é um tempo para não esquecer a terra molhada, e os tons pictóricos no alto da serra. Os tojos, os rosmaninhos, o alecrim do monte, e as aves de rapina sonolentas nos seus voos ainda em construção.
Hoje ainda é tempo para dormir, mas amanhã será o tempo do afloramento, do abrir os olhos à luz, que se vislumbra já no ventre da terra.
Hoje quero dizer-vos que trago comigo o renascimento, a verdade dos nossos corpos ainda adormecidos.
Mas, hoje quero ainda comemorar com todos:
- o tempo das sementes lançadas à terra,
- o tempo dos frutos,
- o tempo das melodias que descem a céu aberto, com as primeiras chuvas a correrem pelos campos,
- o tempo das cegadas,
- o tempo da revolta da terra,
- o tempo de um sol na verticalidade dos nossos gestos
- o Tempo dos equinócios todos, dos quais se espera sejam tempos de mudança,
- o nosso tempo, a marcar em cada passo um renascer constante
- que o canto das águas nos seja presente, tal como quando deitados, o nosso cabelo é um vento feito de ervas tenras.
Hoje senti um vento forte no corpo todo. Um vento que não era vento, por trazer no corpo um VERBO em chamas….
(…)
ONIX

quinta-feira, 16 de março de 2017

Há dias

Há dias que me deixo levar
rio afora. Mas, há noites
que vou gruta adentro, 
nos silvados dos maninhos

É quando os olhos 
me parecem ser dia e noite
no caminho das leiras
junto ao ribeiro de águas frias
e cristalinas

Há dias, que tenho
cheia a boca
com sabores a pólen
de uma flor amarela

Há ainda os dias 
que só o suco agreste
das amoras amassadas
pelos meus dedos
me faz escrever um poema
num dos telhados de xisto

Às vezes, inspira-me 
a ser nua, tal a esfinge 
sempre ousada. Mas, qual 
pedra mal talhada
inerte, calada

Há dias que me apetece
ser um só verso fechado
num penedo a abrir-se
quando inspira a serra
a ser poesia deitada
nas sombras do rio

Há dias que m’impelem 
a ser só um pouco de serra
e mais um pingo de mel
na minha boca

DM