sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

Tyranossaurios Rex - Espreitou

( Foto de minha autoria na minha aldeia - Moção)
*
Lá nas terras altas
À torreira do sol
Que desce sobre a encosta
Ouvem-se sons diversos
Melodias encantam as serranias
Ecos renascem nas pedrarias

Seguem-nos olhares perdidos
Escondidos na folhagem húmida circundante
Abundam espécies raras
E tresmalhadas
Retocam-se as cores matizadas
Sob a aragem suave agreste e adocicada
Das fontes de água cristalinas

sábado, 28 de Novembro de 2009

Memórias

Caminho sem pressa, de chegar. Há sempre um outro que se desdobra e ao entar nele, outros sons, outros cheiros, se vão apresentando, como que a dizer, entra.

Talvez devesse mesmo voltar atrás. O sol já se pôs, lá em casa janta-se cedo e vou perder aquele rebuliço da aldeia dos fins de tarde; Os animais que regressam, as mulheres que vão preparar o caldo, com mais alguma coisa para aconhegar o estômago, as crianças que me olham sempre com aquele ar curioso, tal como eu fazia, sempre que chegava alguém da cidade. Tenho dias que os olhos bem de perto, e vejo-lhes no olhar aquele sol que só se consegue ver quando entramos bem fundo e visualizamos algo que brilha. Neste caso eles vêm de ajudar os pais, ou então de alguma brincadeira, mas que aqui neste lugar, tem sempre um cheiro a terra ou a urzes do monte. O gado vai andando por aqui e ali, e eles ainda crianças, vão arranjando algo para se entreterem.


Lembro-me tão bem desta cena há já tantos anos. Ficava encostada a um canto, sem nada dizer, mas observando os gestos, ouvindo com atenção as conversas e viajava por sitios que desconhecia, mas que sabia estaria próximo. Pois estava já mais que determinado que iria para Lisboa quando completasse a 4ª classe. Já lá tinha estado, mas não me dei nada bem lá. Voltei a pedido da minha avó Lívia que nos ajudou a nascer. Só nos tinha a nós. O meu avô emigrou para o Brasil e por lá ficou, morreu no ano que iria regressar. Netos, só eu e os meus dois irmãos Alberto e Herculano.
Existe por estes sítios uma magia que me prende, mas muitas vezes não sei explicar porque me detenho perante uma simples pedra mal arrumada no caminho. Lembro quase sempre nestas andanças, por estes lugares esquecidos, a minha avó, sempre que conduzia os carros carregados, ou de estrume para adubar as terras, ou de mato para cobrir o chão dos currais dos animais. Ela sempre preocupada com tudo o que os impedisse de poder subir as calçadas.

Porém, mas neste que agora estou, só há o canto dos pássaros, e alguns cucos que deslizam suvamente e muito alto por cima das copas dos pinheiros. Lanço um olhar breve sobre o céu que começa agora a mudar de cor, mas ainda não é desta que vou conseguir alcançar um cuco. Será mesmo melhor regressar à aldeia, e anhão quem sabe o que me espera.

Solidão

*
Seria eu um só rosto
de esperança
um só corpo
a desaguar nos teus olhos
se me visses agora
neste caminho
ao abandono
*
Na minha cidade
há rostos que se curvam
no pó dos caminhos
há bocas famintas
há braços caídos
há invernos tenebrosos
idosos encarcerados
e crianças em carreiros
mal amadas
abandonadas
*
Lá na minha aldeia
há um céu que brilha
há o cheiro a terra
há também a aragem suave
a erva que cresce
o rio que adormece
o alecrim do monte
a dor que se esquece
e mil e uma estrelas cadentes
*
Nesta nossa cidade
eu vejo olhos fechados
casas vazias
ruas enegrecidas
o Tejo que sempre apetece
enquanto olhares
esmorecem
num rio de saudade
*
Se eu fosse à minha cidade
e à minha aldeia
trocaria tudo
por um grão de areia
que voasse
que me libertasse
e que me fizesse sentir
que aqui e lá
o céu é da mesma cor
sempre que algo acontece
no meio da solidão

segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

Histórias....

Um fim de tarde, ou início da manhã. Todas as horas são horas para falar de tempos idos, de pessoas que deixaram as suas marcas nestes ermos distantes onde o vento faz eco, a chuva cai sobre os pinheiros, a terra ardente onde o sol se levanta e se põe sempre que nossos olhos se levantam à mesma hora. Este cheiro a terra, que nos lembra que ela é a nossa morada, aquela que nos acolheu. Homens e mulheres que, mesmo em idade avançada não deixam de pisar o chão que os viu nascer. Lembro da minha tia Carmo que fazia sempre gosto em ir pelos caminhos que mais acesso dão aos terrenos, em busca de um sol para o seu olhar. A terra agreste que a viu nascer e também morrer, era para ela a vida em plena comunhão com a natureza. Lembro de a ver parada a olhar o céu, e também o que está para além dele. Para ela, havia sempre um sol que nascia em cada florir de uma flor, em cada rebento de milho, em cada fruto a amadurecer, ou em cada rego de água que corre e se entranha nos torrões secos e agrestes destas terras da Beira Alta.

(Nas fotos apresentação do meu livro "Olhares em Castro Daire. Conta algumas passagens por estas terras, quando em criança eu....andava ao colo de alguns com quem partilho agora estes momentos)

Nesta calçada onde estamos agora nesta amena conversa, os ecos das nossas vozes ouvem-se até ao centro da aldeia. Os meus risos estridentes são timbres afinados bem ao gosto da terra. O meu primo Orando veio até à aldeia onde viveu tantos anos, os meu primos Abílio e José estão cá de férias como eu, os meus pais cá se vão ajeitando há alguns anos regressados à aldeia, após muitos anos em Lisboa. Ao meu pai José ninguém o tira daqui, é vê-lo deitar-se bem cedo e levantar-se ainda de madrugada. Ficou-lhe o amanhecer no verão para ver das águas para regar os milhos. Ainda mantém este ritmo. Agora também gosta de ir à missa do Domingo e é satisfação levar outros com ele. O carro está sempre cheio, e mais pudesse, mais levava. Lembram-se os bailaricos daqui e os de outras terras. Contam-se experiências várias: diz o meu primo Abílio que foram uns quantos rapazes da aldeia noite cerrada pela serra acima, (carro não havia na época para eles, a não ser o carro dos bois que tinham que junger para o trabalho da terra). Namorar, estar com raparigas bonitas e dançar a noite toda, era a única diversão e lá foram eles, contam os meus primos Abílio e Agostinho. Chegados lá nada indicava que haveria baile por aquelas bandas. De volta agora descendo a serra, tristes mas preparados para mais um próximo baile.

A propósito de bailes, conta a minha mãe Deolinda, lembrando um ano em que foi farra um dia até anoitecer, fazendo só uma pausa para beijar o senhor no dia Páscoa. Diz ela: “o Senhor já a entrar na aldeia e nós a dançar. Viemos a correr beijar o senhor e voltamos para dar continuação ao baile. E se baile não havia programado por alguém, o Adrianito, coitado, Deus o lá tenha, tocava o seu realejo e dançava. Portanto, diversão não faltava, até porque ao fim de semana teria que haver algo que os afastasse da semana que viria a chegar onde o trabalho aperta, quer para os homens quer para as mulheres. E alguém termina com mais uma história sobre artes que segundo eles não se coadunam com estes hábitos agrestes de bem trabalhar a terra. Na aldeia de Ester, o Sidónio que atravessava a serra com umas quantas canastras de sardinha à cabeça para vender, fazia-o tocando músicas de ouvido no seu realejo; uma mão segurava as canastras, a outra segurava o realejo junto aos eus lábios secos e sedosos de outros sons.

E assim nos despedimos com a esperança de que no dia seguinte mais histórias teria para ouvir e Vos contar....

quinta-feira, 13 de Agosto de 2009

O Caminhar Das Águas

Agora é assim...um tubo para canalizar as águas que corriam livremente pelas encostas.
Aproveita-se assim este líquido, um bem precioso que escasseia cada vez mais. Enquanto isso, os usos e costumes de outrora vão-se perdendo, e aperfeiçoam-se estes.

Assim, as culturas em terras que tiveram direito ás águas e que passaram gerações, como sobrevivem, se só alguns são detentores com este novo método de trazer as águas das nascentes, sem haver respeito pelo uso-fruto?

Vão-se os tempos antigos com as pessoas que os conheciam e novos ventos se avizinham. Haverá novos tumultos, para acrescentar aos já existentes, sempre que passamos pelos meses de verão, em que as fracas comunidades tentam a todo o custo manter o que lhes pertence por direito de uso-fruto. Mas será que sabem mesmo o que lhes cabe ao fim de tantos anos afastados das suas terras?

Por mim vou-me ficando à margem desta teoria de que: "o seu a seu dono", já não é o que era. Naqueles espaços que visito sempre no verão, não sei de águas nem de usos e costumes, a não ser aqueles que vou retirando através da música popular e da etnogafia. Ainda é o que me dá prazer, saber como viviam e não como querem viver nesta sociedade mostrando a cada dia que passa o seu lado mais competitivo, afastando-se do que de verdadeiro existe nestes lugares que primam pelo belo de tão maravilhosos que são.

sábado, 8 de Agosto de 2009

Névoas

Lá para os lados de Reriz, a serra cobre-se de um colorido esbranquiçado. Ao longe quase se pode sentir esta leveza cor de pérolas, que ronda um céu brilhante e esvoaça junto às encostas, baixando até quase ao ponto de passagem. As gentes destas terras falam como se fizessem parte delas numa linguagem similar perfeita. Trabalham a terra e vivem no meio das montanhas. Os cumprimentos habituais, as azáfamas do costume, a rega que é precisa:


- "os milhitos, coitadinhos que tanta sede têm" diz a tia Dulce. A minha mãe acena com a cabeça que as névoas lá ao longe são um aviso de que o vento de cima vem aí talvez esta noite.

- Esperamos que não seja nada, mas que ele vem vem.
Assim nos despedimos, sem mais a dizer, com um até manhã se Deus quiser...


De facto quando me fui deitar por volta das 23h300, já se ouvia o uivo característico do vento do Norte. Um eco a embalar-me o sono e com ele adormeci até de manhã bem cedo quando os guisos do rebanho do Carlindo me despertaram para o nascer do sol que estava prestes a acontecer.

Quase a tocar o Céu

Ao Cair do Dia

(Entre Carvalhal e Castro Daire )


Este é um aroma doce a entregar-se no meu corpo frágil. Descem das montanhas novos tons ainda com resquícios primaveris que cobrem as encostas e se deitam sempre ao cair do dia...
Ansia de chegar a tempo de poder assimilar os sons que ecoam na aldeia em fins de tarde, quando o sol se lança neste vai-e-vém, pintando no céu as cores que me cobrem o rosto
São eles mais do que figuras abstractas, seguindo rumos incertos pelas serranias...