terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Uma Questão de Fé

Se o vento soprasse de mansinho, a água correria num sentido oposto e os peixes deslizariam já pelas fragas soltas que se vestem de um musgo acastanhado. Mas não! A brisa que passa nem se sente, e o vento do norte vem quase sempre neste mês de Agosto mas de passagem e é à noite que se sente com mais intensidade. Ouço-o sempre antes de dormir. Chega fazendo os seus estragos, derrubando os milhos e o centeio e algumas árvores. O eco ruidoso que deixa à sua passagem, é revelador da sua força por estas paragens nas terras altas do granito. Quando cheguei, a água deste lado mantinha-se calma e um contraste perfeito com os ramos dos amieiros e as carumas lânguidas dos pinheiros que sobrevoam as correntes. Olho as margens do poço profundo e os peixes que se regalam com esta calmaria, olham-me de soslaio sem saberem se hão-de ir ou ficar. Os que por aqui abundam, têm quase todos a mesma cor, coloco um pé na água para lhe sentir a frescura e abafar este calor que me inunda o corpo e é vê-los a deslizar uns para um lado, outros para o outro, a correr feito loucos, escondendo-se por detrás das rochas. Sentei-me num monte de areia, que estava rodeado de um outro cheio de relva que cresceu ao sabor do vento, e ali fiquei a observar a paisagem. O sol vai quase a passar a linha que quase toca o céu visto daqui, a serra deixa um colorido nas águas que mais parecem luas gigantes a boiar no meio do oceano.
Irrompem pelo meu silêncio vozes soltas que vão chegando. Crianças em êxtase e os pais com os olhos extasiados pela paisagem que se lhes oferece terna e aconchegante. Procuram um lugar certo para ficar, a tagarelar, elas, as mães despem as crianças, colocam-lhes creme no corpo, para protecção solar, bóias para aquelas que não sabem nadar. Olho à minha volta e a água está cada vez mais apetecível. Lá mais ao fundo onde o sol não chega a fundura das águas deixa uma cor diferente na corrente. Falta-lheo brilho das pequenas partículas de areia, brilhantes, que eu pegava sempre quando em criança vinha nadar. A linha estava bem traçada e não avançava mais do que 3 ou 4 metros desde o início da margem. Faltava-me ainda muito para ter a segurança que tenho hoje. Nadar é entrar na água e afundar-me nela, respirar e viajar para outro mundo; inspirar, expirar, e deixar-me ir até me cansar. Dispo a roupa e entro de uma só vez cortando ás aguas até ao meio daquele poço - o mais fundo daquela parte do rio. Desapareço por instantes, para depois vir à tona da água e deslizar em pequenas braçadas para um lado e para outro até conseguir aguentar o maior tempo possível. A minha vida na cidade tem sido nestes últimos meses, um pouco parada, para além do Tachi/Chikung, pouco exercício faço. Deixei a natação e noto já um certo esforço para ir e voltar sem ter que parar. Resolvo descansar um pouco e saio da água do outro lado de onde se avista uma casa antiga que sempre admiro quando cá venho. Nunca lá estive. Será bom ir explorar. Enquanto galgo as rochas que se misturam em montes de areia, vou apanhando algumas pedras, como faço sempre. São lindas as suas cores, no seu brilho aqui largadas ao sol e às enxurradas de inverno. Já sem saber como as trazer para o outro lado deposito-as num canto e olho em redor à procura de algum trilho, por onde possa passar para as levar e guardar no saco que ficou na outra margem. Uma voz me desperta, olho para trás e vejo um amigo de infância, dos tempos da escola. Falámos durante algum tempo. Lembrámos outros que também se foram tal como nós, das brincadeiras, dos jogos, dos concursos ali mesmo naquele local que nós inventávamos e pergunto-lhe:
_ Mário lembras-te das nossas loucuras, das nossas brincadeiras de crianças, quando nos predispúnhamos a saltar do topo daquele pinheiro. Bem agora está mais alto, mas mesmo assim, para crianças da nossa idade era um gigante não achas?

Ele ria e dizia em tom baixo, como se temesse que alguém ouvisse:- E se soubesses o medo que eu tinha de fazer aquilo. Só o fazia porque o teu irmão e os outros o faziam também e sem receio. Mas o meu coração batia tão forte. Sabes que são perigosos estes jogos. Devíamos tentar saber o que estaria aqui. Vê só as rochas enormes que por aqui abundam.- Sim tens razão Mário, eu não saltava. Nunca consegui. O que mais gostava era, daquele jogo em que mergulhávamos para ver quem conseguia aguentar mais tempo debaixo de água. Esse sim eu gostava. Mas sabes. Eu sempre ouvia a minha avó e a minha tia dizer que as crianças trazem sempre por perto o seu anjo da guarda. Lembras-te um dia em que lá na aldeia, resolvemos ir explorar casas velhas a cair de podres? Isso era perigoso. Entrávamos por lá adentro e atravessávamos as traves já a desfazerem-se sem soalho á volta. Eu numa dessas brincadeiras caí e só me lembro do meu vestido branco fazer balão. Foi o meu pára-quedas. Fui até lá abaixo, quase a planar. Não me vais dizer que foi o meu vestido que me ajudou. Estava lá ele de certeza.

Uma gargalhada saiu-me bem certeira junto aos olhos do Mário que sorria com gosto olhando os meus. Ouve-se uma voz de mulher que ecoa por entre o pinheiral. Era a esposa do Mário avisando-o de que estavam já prontos para irem embora. Despedimo-nos e vi-o entrar na água e deslizar rápida e suavemente até atingir a margem do outro lado, onde tínhamos estacionado os carros. Sorri lembrando que também ele aprendeu tal como eu a nadar tão pequeno. Estávamos os dois no nosso espaço. Terra rude e ao mesmo tempo transmitindo segurança, tranquilidade, agreste e selvagem que nos viu nascer. Segui-o e entrei de mergulho e ali fiquei, ora nadando, ora boiando nas águas calmas e serenas a olhar o céu. Boiar é para mim de uma facilidade, que quase adormeço, é como estar deitada a descansar. Quando resolvo voltar vou deslizando ora debaixo de água, ora fora dela e quando os meus pés atingem as rochas junto à margem, vejo um homem de estatura tão pequena, que mais parece uma criança. Olho á minha volta e já só restávamos nós, todos se tinham ido embora. Era quase hora de jantar. O homem olhava-me como se me conhecesse, mas eu fui-me aproximando e vi que nunca o tinha visto por aquelas bandas. Quando cheguei junto dele, perguntou-me se tinha visto alguém chegar ali com uma bicicleta e que andava à procura dos seus familiares. Eu olhava-o enquanto me vestia e a conversa desenvolveu-se de tal forma, que quando dei por mim já estávamos a entrar quase no lusco-fusco. Ele esqueceu a família que procurava e eu esqueci que meus pais deviam estar à minha espera também. Falamos de Fé, de Deus, de Anjos, de pessoas, do amor, de alegrias de tristezas de épocas vividas e por viver. Contudo, enquanto conversava com ele, fui notando alguns traços que nada têm a ver com aquilo que conhecemos na forma humana física e visível. Embora ele se apresentasse assim, tinha um corpo muito magro, aí com 1 m de altura, orelhas grandes, esguias e bicudas no topo, boca grande para a estatura e os olhos apresentavam-se com uma cor não definida, ora verdes, ora cinza, ora azuis, mas quase sempre se apresentaram sem cor.

Quando lhe sugeri que fossemos, que estava a ficar tarde, indicou-me a casa que eu sempre olho quando lá vou, e contou-me a história das famílias que a habitaram, dizendo-me que morava ao lado dessa casa para trás de um outeiro. Mas eu sempre que aqui venho nunca vejo nenhuma casa naquele sítio e lembro que para ser um habitante daquela zona, havia também ausência de sotaque. Então deduzo que talvez fosse ali só para falar comigo e talvez tivesse uma mensagem importante para mim. Estou convicta de que já sei qual a mensagem, que já decifrei uma parte dela.

Ouço a voz da minha mãe, misturada com a corrente do rio que passava silenciosa, abro os olhos e pergunto-lhe:

_ Onde está ele? O meu Anjo?
Ela sorri para mim, olhando para um e outro lado e diz-me sorrindo. -Adormeceste e sonhaste com anjos. Tu e as tuas crenças levar-te-ão longe. É preciso não perder a fé
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Este conto resultou de uma conversa com um amigo que me incentivou a escrevê-lo
Em sua homenagem foi publicado aqui:
http://www.worldartfriends.com/modules/newbb/viewtopic.php?topic_id=374&post_id=1394#forumpost1394

2 comentários:

M. Araújo disse...

Gosto deste conto. Passeias-me pela ruralidade de um mundo que convém esquecido. é por que os seres civilizados tudo devoram na sua passagem. Assim Moção, manter-se-á intacta como um diamante que a natureza alberga carinhosa. Há recados na prosa, visões de paraísos trocados pela imensa urbe, despedidas lancinantes de quem ali nasceu mas adivinha morrer com ela ausente. Nada nos torna mais pobres que a dor reconhecida do abandono das origens.

O NOVO POETA disse...

seu blog é lindo e seus trabalhos são ótimos, muito obrigado pela visita, fique em paz.