segunda-feira, 18 de junho de 2012

Quem conta um conto


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Com os pés dentro de água, e o olhar sobre as margens do rio, deixo-me conduzir a certos estilos de vida, e a registos que ainda se encontram em estado quase inalterável, sempre que me foco no modo como vivem ainda algumas pessoas. Parece que o tempo parou e nada se modificou por aqui. O poço dos frades está ainda longe de o poder alcançar, pelo menos por hoje. Faz-se tarde, o sol quase se põe e o cansaço começa a vencer um corpo que já se habituou a um outro estilo de vida na grande cidade. Sei que terei que o encontrar, pois será mais um ponto, a levar-me ao passado, não do tempo em que os frades o visitavam, porque esses foram uma classe á parte, transportando uma outra cultura, talvez oriental para um espaço onde a força dos 4 elementos está sempre presente.

O carro desliza sobre o alcatrão, e apesar de estar já quase a atingir o lusco-fusco, ainda dá para sentir este bafo quente vindo da Serra do Montemuro, trazendo os cheiros característicos das suas flores montanhesas; urzes, alecrim do monte, rosmaninho, giestas brancas e giestas amarelas, piornas, sargaços brancos e sargaços amarelos…etc. Pútegas é um fruto montanhês retirado da raíz do sargaço. Na primavera é quando se pode apreciar este fruto que deixa escorrer um suco meio agreste, meio adocicado, que faz as delícias de quem percorre os trilhos da serra.

Há um tempo para tudo, quando vemos que mais uma noite se aproxima e que trará com ela, nortadas fortes, que por certo,  irão fazer estragos nos campos de milho, mas mesmo assim, a noite vai começar com o encaminhar de novas águas e de novas histórias, de tempos memoráveis. Amanhã será mais um dia, para tentar saber onde e como se movimentou um homem, que não se curvou perante as normas impostas por qualquer ordem religiosa, mas que sendo um filho de camponeses pobres e sem terra, se limitou a este espaço, para tentar sobreviver....


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