sexta-feira, 19 de março de 2010

José, é o nome de meu PAI

Sereno e confiante
Desliza sobre o monte
Um olhar penetrante
Que sempre
Atinge o céu
Quando se remete
Ao silêncio
Que o conduz
Para longe
Quando o dia
Se faz breu
*
José, é o nome de meu PAI
*
E será eternamente
Um fio que nos liga
Ao sonho e à vida
Como um rio
Capaz de nascer
E perecer
Sem ter que passar
Pela dor re-vi-vida
Aquietando as correntes
Em pura ascensão
Que nos farão
Renascer de novo
*
Por se comemorar o dia do Pai, lembrei dele.
José Marques,
um nome como tantos outros que nasceram
por terras Beirãs e lá se fizeram homens.
Foi criança, que brincou,
estudou e trabalhou
Foi militar, e ao mesmo tempo casou
Foi migrante e em Lisboa se instalou
Mas é lá,
entre a Serra do Montemuro e o Rio Paiva que o vejo, até hoje,
onde vive ainda com 78 anos

segunda-feira, 8 de março de 2010

Afiguram-se-me Memórias


Sobrevivo num tempo de memórias
Que me são fatais
E pinto o firmamento de cores
Que são os meus ideais

Raios de sol sobrevoam as serras
E traçam nos pinhais
Figuras ancestrais
Que deixam nas encostas
Marcas matinais

E são corpos firmes desiguais
Perpetuando sonhos delicados
Sob um vento agreste
Presos nestes matagais

E nas serras majestosas
Ouvem-se gritos distantes
E raios de sol entram pelos pinheirais
São uivos dilacerantes
Que sobem como espirais
*
Poema do meu livro Olhares editado em 2008.
Homenagem a minha aldeia e à Serra do Montemuro

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

NUANCES de Um Silêncio a Dois


Nuances...De um Silêncio a Dois (O LIVRO)

Um livro que tem como ponto de partida, a poesia a duas mãos, Ana Coelho e José Antunes
O evento irá realizar-se no dia 20 de Fevereiro próximo, e conta com o apoio da Câmara Municipal do Alenquer.
Esta apresentação está inserida na Feira do Livro a decorrer no Fórum Romeira em Alenquer, local onde será realizado o evento.
A organização do evento estará a cargo da editora "EDITA-ME" que contará com alguns momentos musicais e com as crianças presentes, irão ser desenvolvidas actividades pedagógicas por animadoras socioculturais, que estarão sob orientação de Cátia Costa.
Gostaríamos de poder contar com a Vossa presença.

Partilhamos convosco partes do prefácio escrito pelo Prof. Arlindo Mota

PREFÁCIOAna coelho e José Antunes: entre nuances, sonhos e cumplicidades

Ana Coelho e José Antunes, são dois autores com uma envolvente e genuína pulsão pela poesia. Na escrita e nos gestos, que de gestos também se constrói a poesia. Buscam com paixão e rigor o segredo das palavras, que renovam sem cessar. Parcimoniosos na utilização de metáforas, optam claramente por não assentar na metrificação clássica, salvo uma ou outra incursão, num ou noutro poema.Conhecedores da herança lírica portuguesa, não se confinam ao formalismo e abordam a linguagem com criatividade, onde os temas do amor estão abundantemente presentes, mas também o psicológico e o social (sem cair no realismo) não são esquecidos e isso revela-se ao longo de todo do livro. A sua poesia, seguindo a moderna estética, constitui a verdade de um mundo sentido por uma subjectividade; o que ela diz é um mundo para o homem, um mundo visto de dentro, mundo singular e inimitável a que só o sentimento dará acesso. Falei até agora dos autores como se fossem apenas um: eles de alguma forma a isso nos conduzem, porque se apresentam juntos, face a se face, porque o livro constitui para eles a sagração dessa comunhão. Mas, em boa verdade, se muitos traços os identificam, outros os distinguem. Ana Coelho navega mais suavemente nas palavras, é, de algum modo, o lado assumidamente feminino do livro; José Antunes, de escrita comedida, apresenta mais arestas na leitura e na interpretação da sua simbologia. Comum aos dois, a contenção vocabular e arredia da adjectivação excessiva, que torna a sua poesia rigorosa e límpida, dotada de uma invejável coerência interna.O livro, por sua opção, apresenta-se dividido em cinco capítulos: “Momentos”; “Trincheiras de Sonho”; “Distâncias”; “Lampejos”; “Cumplicidades”.

Janeiro de 2010
Arlindo Mota

(Convite enviado pelos autores e amigos Ana e José. Conto convosco)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Uma Questão de Fé

Se o vento soprasse de mansinho, a água correria num sentido oposto e os peixes deslizariam já pelas fragas soltas que se vestem de um musgo acastanhado. Mas não! A brisa que passa nem se sente, e o vento do norte vem quase sempre neste mês de Agosto mas de passagem e é à noite que se sente com mais intensidade. Ouço-o sempre antes de dormir. Chega fazendo os seus estragos, derrubando os milhos e o centeio e algumas árvores. O eco ruidoso que deixa à sua passagem, é revelador da sua força por estas paragens nas terras altas do granito. Quando cheguei, a água deste lado mantinha-se calma e um contraste perfeito com os ramos dos amieiros e as carumas lânguidas dos pinheiros que sobrevoam as correntes. Olho as margens do poço profundo e os peixes que se regalam com esta calmaria, olham-me de soslaio sem saberem se hão-de ir ou ficar. Os que por aqui abundam, têm quase todos a mesma cor, coloco um pé na água para lhe sentir a frescura e abafar este calor que me inunda o corpo e é vê-los a deslizar uns para um lado, outros para o outro, a correr feito loucos, escondendo-se por detrás das rochas. Sentei-me num monte de areia, que estava rodeado de um outro cheio de relva que cresceu ao sabor do vento, e ali fiquei a observar a paisagem. O sol vai quase a passar a linha que quase toca o céu visto daqui, a serra deixa um colorido nas águas que mais parecem luas gigantes a boiar no meio do oceano.
Irrompem pelo meu silêncio vozes soltas que vão chegando. Crianças em êxtase e os pais com os olhos extasiados pela paisagem que se lhes oferece terna e aconchegante. Procuram um lugar certo para ficar, a tagarelar, elas, as mães despem as crianças, colocam-lhes creme no corpo, para protecção solar, bóias para aquelas que não sabem nadar. Olho à minha volta e a água está cada vez mais apetecível. Lá mais ao fundo onde o sol não chega a fundura das águas deixa uma cor diferente na corrente. Falta-lheo brilho das pequenas partículas de areia, brilhantes, que eu pegava sempre quando em criança vinha nadar. A linha estava bem traçada e não avançava mais do que 3 ou 4 metros desde o início da margem. Faltava-me ainda muito para ter a segurança que tenho hoje. Nadar é entrar na água e afundar-me nela, respirar e viajar para outro mundo; inspirar, expirar, e deixar-me ir até me cansar. Dispo a roupa e entro de uma só vez cortando ás aguas até ao meio daquele poço - o mais fundo daquela parte do rio. Desapareço por instantes, para depois vir à tona da água e deslizar em pequenas braçadas para um lado e para outro até conseguir aguentar o maior tempo possível. A minha vida na cidade tem sido nestes últimos meses, um pouco parada, para além do Tachi/Chikung, pouco exercício faço. Deixei a natação e noto já um certo esforço para ir e voltar sem ter que parar. Resolvo descansar um pouco e saio da água do outro lado de onde se avista uma casa antiga que sempre admiro quando cá venho. Nunca lá estive. Será bom ir explorar. Enquanto galgo as rochas que se misturam em montes de areia, vou apanhando algumas pedras, como faço sempre. São lindas as suas cores, no seu brilho aqui largadas ao sol e às enxurradas de inverno. Já sem saber como as trazer para o outro lado deposito-as num canto e olho em redor à procura de algum trilho, por onde possa passar para as levar e guardar no saco que ficou na outra margem. Uma voz me desperta, olho para trás e vejo um amigo de infância, dos tempos da escola. Falámos durante algum tempo. Lembrámos outros que também se foram tal como nós, das brincadeiras, dos jogos, dos concursos ali mesmo naquele local que nós inventávamos e pergunto-lhe:
_ Mário lembras-te das nossas loucuras, das nossas brincadeiras de crianças, quando nos predispúnhamos a saltar do topo daquele pinheiro. Bem agora está mais alto, mas mesmo assim, para crianças da nossa idade era um gigante não achas?

Ele ria e dizia em tom baixo, como se temesse que alguém ouvisse:- E se soubesses o medo que eu tinha de fazer aquilo. Só o fazia porque o teu irmão e os outros o faziam também e sem receio. Mas o meu coração batia tão forte. Sabes que são perigosos estes jogos. Devíamos tentar saber o que estaria aqui. Vê só as rochas enormes que por aqui abundam.- Sim tens razão Mário, eu não saltava. Nunca consegui. O que mais gostava era, daquele jogo em que mergulhávamos para ver quem conseguia aguentar mais tempo debaixo de água. Esse sim eu gostava. Mas sabes. Eu sempre ouvia a minha avó e a minha tia dizer que as crianças trazem sempre por perto o seu anjo da guarda. Lembras-te um dia em que lá na aldeia, resolvemos ir explorar casas velhas a cair de podres? Isso era perigoso. Entrávamos por lá adentro e atravessávamos as traves já a desfazerem-se sem soalho á volta. Eu numa dessas brincadeiras caí e só me lembro do meu vestido branco fazer balão. Foi o meu pára-quedas. Fui até lá abaixo, quase a planar. Não me vais dizer que foi o meu vestido que me ajudou. Estava lá ele de certeza.

Uma gargalhada saiu-me bem certeira junto aos olhos do Mário que sorria com gosto olhando os meus. Ouve-se uma voz de mulher que ecoa por entre o pinheiral. Era a esposa do Mário avisando-o de que estavam já prontos para irem embora. Despedimo-nos e vi-o entrar na água e deslizar rápida e suavemente até atingir a margem do outro lado, onde tínhamos estacionado os carros. Sorri lembrando que também ele aprendeu tal como eu a nadar tão pequeno. Estávamos os dois no nosso espaço. Terra rude e ao mesmo tempo transmitindo segurança, tranquilidade, agreste e selvagem que nos viu nascer. Segui-o e entrei de mergulho e ali fiquei, ora nadando, ora boiando nas águas calmas e serenas a olhar o céu. Boiar é para mim de uma facilidade, que quase adormeço, é como estar deitada a descansar. Quando resolvo voltar vou deslizando ora debaixo de água, ora fora dela e quando os meus pés atingem as rochas junto à margem, vejo um homem de estatura tão pequena, que mais parece uma criança. Olho á minha volta e já só restávamos nós, todos se tinham ido embora. Era quase hora de jantar. O homem olhava-me como se me conhecesse, mas eu fui-me aproximando e vi que nunca o tinha visto por aquelas bandas. Quando cheguei junto dele, perguntou-me se tinha visto alguém chegar ali com uma bicicleta e que andava à procura dos seus familiares. Eu olhava-o enquanto me vestia e a conversa desenvolveu-se de tal forma, que quando dei por mim já estávamos a entrar quase no lusco-fusco. Ele esqueceu a família que procurava e eu esqueci que meus pais deviam estar à minha espera também. Falamos de Fé, de Deus, de Anjos, de pessoas, do amor, de alegrias de tristezas de épocas vividas e por viver. Contudo, enquanto conversava com ele, fui notando alguns traços que nada têm a ver com aquilo que conhecemos na forma humana física e visível. Embora ele se apresentasse assim, tinha um corpo muito magro, aí com 1 m de altura, orelhas grandes, esguias e bicudas no topo, boca grande para a estatura e os olhos apresentavam-se com uma cor não definida, ora verdes, ora cinza, ora azuis, mas quase sempre se apresentaram sem cor.

Quando lhe sugeri que fossemos, que estava a ficar tarde, indicou-me a casa que eu sempre olho quando lá vou, e contou-me a história das famílias que a habitaram, dizendo-me que morava ao lado dessa casa para trás de um outeiro. Mas eu sempre que aqui venho nunca vejo nenhuma casa naquele sítio e lembro que para ser um habitante daquela zona, havia também ausência de sotaque. Então deduzo que talvez fosse ali só para falar comigo e talvez tivesse uma mensagem importante para mim. Estou convicta de que já sei qual a mensagem, que já decifrei uma parte dela.

Ouço a voz da minha mãe, misturada com a corrente do rio que passava silenciosa, abro os olhos e pergunto-lhe:

_ Onde está ele? O meu Anjo?
Ela sorri para mim, olhando para um e outro lado e diz-me sorrindo. -Adormeceste e sonhaste com anjos. Tu e as tuas crenças levar-te-ão longe. É preciso não perder a fé
**************************************************
Este conto resultou de uma conversa com um amigo que me incentivou a escrevê-lo
Em sua homenagem foi publicado aqui:
http://www.worldartfriends.com/modules/newbb/viewtopic.php?topic_id=374&post_id=1394#forumpost1394

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Tyranossaurios Rex - Espreitou

( Foto de minha autoria na minha aldeia - Moção)
*
Lá nas terras altas
À torreira do sol
Que desce sobre a encosta
Ouvem-se sons diversos
Melodias encantam as serranias
Ecos renascem nas pedrarias

Seguem-nos olhares perdidos
Escondidos na folhagem húmida circundante
Abundam espécies raras
E tresmalhadas
Retocam-se as cores matizadas
Sob a aragem suave agreste e adocicada
Das fontes de água cristalinas

sábado, 28 de novembro de 2009

Memórias

Caminho sem pressa, de chegar. Há sempre um outro que se desdobra e ao entar nele, outros sons, outros cheiros, se vão apresentando, como que a dizer, entra.

Talvez devesse mesmo voltar atrás. O sol já se pôs, lá em casa janta-se cedo e vou perder aquele rebuliço da aldeia dos fins de tarde; Os animais que regressam, as mulheres que vão preparar o caldo, com mais alguma coisa para aconhegar o estômago, as crianças que me olham sempre com aquele ar curioso, tal como eu fazia, sempre que chegava alguém da cidade. Tenho dias que os olhos bem de perto, e vejo-lhes no olhar aquele sol que só se consegue ver quando entramos bem fundo e visualizamos algo que brilha. Neste caso eles vêm de ajudar os pais, ou então de alguma brincadeira, mas que aqui neste lugar, tem sempre um cheiro a terra ou a urzes do monte. O gado vai andando por aqui e ali, e eles ainda crianças, vão arranjando algo para se entreterem.


Lembro-me tão bem desta cena há já tantos anos. Ficava encostada a um canto, sem nada dizer, mas observando os gestos, ouvindo com atenção as conversas e viajava por sitios que desconhecia, mas que sabia estaria próximo. Pois estava já mais que determinado que iria para Lisboa quando completasse a 4ª classe. Já lá tinha estado, mas não me dei nada bem lá. Voltei a pedido da minha avó Lívia que nos ajudou a nascer. Só nos tinha a nós. O meu avô emigrou para o Brasil e por lá ficou, morreu no ano que iria regressar. Netos, só eu e os meus dois irmãos Alberto e Herculano.
Existe por estes sítios uma magia que me prende, mas muitas vezes não sei explicar porque me detenho perante uma simples pedra mal arrumada no caminho. Lembro quase sempre nestas andanças, por estes lugares esquecidos, a minha avó, sempre que conduzia os carros carregados, ou de estrume para adubar as terras, ou de mato para cobrir o chão dos currais dos animais. Ela sempre preocupada com tudo o que os impedisse de poder subir as calçadas.

Porém, mas neste que agora estou, só há o canto dos pássaros, e alguns cucos que deslizam suvamente e muito alto por cima das copas dos pinheiros. Lanço um olhar breve sobre o céu que começa agora a mudar de cor, mas ainda não é desta que vou conseguir alcançar um cuco. Será mesmo melhor regressar à aldeia, e anhão quem sabe o que me espera.

Solidão

*
Seria eu um só rosto
de esperança
um só corpo
a desaguar nos teus olhos
se me visses agora
neste caminho
ao abandono
*
Na minha cidade
há rostos que se curvam
no pó dos caminhos
há bocas famintas
há braços caídos
há invernos tenebrosos
idosos encarcerados
e crianças em carreiros
mal amadas
abandonadas
*
Lá na minha aldeia
há um céu que brilha
há o cheiro a terra
há também a aragem suave
a erva que cresce
o rio que adormece
o alecrim do monte
a dor que se esquece
e mil e uma estrelas cadentes
*
Nesta nossa cidade
eu vejo olhos fechados
casas vazias
ruas enegrecidas
o Tejo que sempre apetece
enquanto olhares
esmorecem
num rio de saudade
*
Se eu fosse à minha cidade
e à minha aldeia
trocaria tudo
por um grão de areia
que voasse
que me libertasse
e que me fizesse sentir
que aqui e lá
o céu é da mesma cor
sempre que algo acontece
no meio da solidão