segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Ainda se Vive Assim

Apesar do tempo que passa e das curtas distâncias que os separam da outra parte do mundo, há ainda quem sobrevive nesta aldeia - Moção do Concelho de Castro Daire.
Cultivam a terra à moda antiga....
Os animais puxam o arado que rasga a terra seca, puxam grandes carradas de lenha, estrume, feno, milho, os cestos de uvas após a vindima...
São pessoas com a face queimada pelo sol que desponta nas terras altas, e mãos rugosas do trabalho árduo, que permanecem nesta aridez granitica com deficientes condições no que se prende à acessibilidade aos terrenos, numa aldeia que permanece no silêncio, esquecida no tempo...

São pessoas de trabalho, como eu costumo dizer "de cara suja da terra" e que abraçam a natureza no seu esplendor. Ao fundo avista-se o Rio Paiva com os seus espelhos de água, reflectindo nas cristalinas águas, as sombras dos pinheiros que sobrevivem nos montes e pinheirais, onde se ouve o estalar das pinhas, o canto do cuco e o seu eco por entre estes matagais.


As mulheres desta aldeia, têm uma personalidade vincada. Nota-se no seu rosto, os traços desta dureza. Trabalham a terra; cavam, regam, erguem socalcos, carregam os carros do estrume que cortam no monte e em casa depois de um dia de trabalho, fazem a lida da casa, o jantar e ainda têm tempo para dedicar à sua familia. A minha avó Lívia, foi uma dessas mulheres. O meu avô emigrou para o Brasil, logo após o seu casamento, mas ela nunca desistiu. Tinha a força "bruta" de um homem a trabalhar a terra, mas a sensibilidade de um poeta, quando as palavras lhe saiam da boca. Um ano em que passava férias com ela, ao fim do dia sentávamo-nos com o lusco-fusco recheado de aromas cristalizados para uma conversa amena. Eu olhei-a e ela sorriu, ao ver a aldeia povoada de gente, disse-me - "dá gosto ver esta aldeia cheia, olha que até as pedras da calçada, sorriem para nós".
Esta grande mulher, a minha avó Livia Ferreira; nasceu no Brasil e veio para Portugal com apenas 6 anos de idade. No trajecto que a levaria a ela e restante família à aldeia que ja a viu ir..., um rebanho de ovelhas no monte despertou-lhe a curiosididade, talvez os cordeiros pequenos que saltitam encenando lutas entre iguais, face-a-face, enquanto não chegam aos currais. O pai diz-lhe que breve, irá saber como é a lida...em lidar com estes animais.
No dia seguinte, conta ela, que já andava a guardar o gado no monte.

Mª Dolores Marques

1 comentário:

Adriana Paulo disse...

Lindo! Retrato da história de meus avós! <3