terça-feira, 26 de agosto de 2008

Figuras Ancestrais

Os barcos deslizam suaves na calada da noite,
Brilham algumas luzes na outra margem do rio
E a lua tem um brilho diferente.

O céu é de um azul índigo forte
E o meu olhar distancia-se rumo a algumas estrelas
Que se assumem cintilantes e completam o quadro
Onde imperam as ideias turbulentas
De uma cidade que se esquece na penumbra da noite

Um pensamento afundado
Debruça-se e trespassa umbrais rumo ao firmamento
Onde um novo espaço que se não quer passado
Se povoa de imagens, lugares, gentes e costumes
Que são silhuetas perdidas nas memórias de um tempo


(Eu, com um traje de linho e estopa de linho - Sec. XIX (Rancho Folc Etnog da Casa do Concelho Castro Daire em Lisboa)Traje domingueiro das gentes do povo que viviam na serra. Calçavama tamancos feitos de couro e madeira e meias de lã. As da mulher eram abertas atrás e as meias rendilhadas.O avental era trabalhado em tear.)

O raiar do dia é um começar de novo com novas tonalidades, novos sorrisos, e o manto escuro que desce sobre o monte desfaz-se lentamente e desenham-se os perfis bem definidos das árvores que se debruçam sobre a aldeia. Avistam-se no azul claro do céu holofotes gigantes, e os raios de sol que sobrevoam as serras, traçam nos pinhais, figuras gigantes ancestrais que deixam nas encostas marcas matinais. Os cestos deixam esvoaçar alguns fios de linho de uma suave candura, que são o final de um trabalho árduo e facetado, que sementes de terra brotaram e mãos rugosas e duras poliram; semearam, colheram, maçaram, tascaram, fiaram, dobaram…O linho pronto a ser mostrado na feira, que no alto da serra se enobrece numa mostra artesanal dos mais belos trabalhos locais. Cestos à cabeça e pés ligeiros pela encosta íngreme da serra, traz a estes recantos esquecidos, uma magia inesquecível, e vamos por caminhos ladeados de árvores e ribeiros que correm por entre fragas desiguais e se transformam em lagos por entre fragmentos relvados que nos parecem ideais, para saborear as iguarias trazidas nas alcofas prontas para estes encontros anuais. Há o pão, o chouriço, o salpicão, o presunto, os doces feitos pela minha avó Lívia, e há também o som do realejo do Sr. António, as vozes que lembram cantigas antigas, dançam-se as danças palacianas trazidas para as gentes do povo, através das casas senhoriais dos senhores feudais. A valsa da forma, a contradança, a chula e ouvem-se rumores de uma alegria extasiante nas entranhas de corpos que por força ficaram presos nestes matagais, que se estendem nos confins de serras, e se erguem majestosas perpetuando sonhos delicados sob um vento agreste, que deixa um rastro de uivos no meio dos pinheirais e edificam raios de sol que são como espirais.
Um corpo de menina estendido no meio das ervas e das flores que são agora de todas as cores, e no céu sobrevoam aves pitorescas com o encanto de voos rasgados e sons que lhe são reais, trazem-lhe de volta o ruído da noite e as luzes da cidade, onde se vislumbram ao longe voos entrelaçados de aves gigantes, com destinos que são do tamanho dos seus sonhos irreais.

Dolores Marques
(Do meu livro "Olhares" - Corpos Editora)

1 comentário:

VÓNY FERREIRA disse...

respira-se as tuas raízes, e nem imaginas a vontade que senti de rir quando te vi trajada a rigor.
Céus... mas como eras um borracho, menina!!
Esta tua pagina está muito, muito interessante não só em termos culturais como com o complemento poético que lhe emprestas.
Adorei e hei-de voltar mais vezes, prometo.
Vóny Ferreira